Segundo Piaget (citado por Negrini,1994) os jogos podem ser classificados em jogos de exercícios(sendo motores), simbólicos e de regras. Nos jogos de exercício, que compreende a fase do nascimento até o surgimento da linguagem, o objetivo é o prazer do funcionamento, o simples divertimento; os jogos simbólicos que vão do aparecimento da linguagem até os 6-7 anos, são aqueles em que surge o símbolo, que possibilita á criança “criar” sua realidade utilizando para isso a imaginação. Aqui a criança procura se auto-afirmar. E os jogos de regras, que iniciam aos 6-7 anos, são aqueles que surgem elementos que vão reger comportamento e as atitudes nos jogos, sendo que as regras têm origem nas relações sociais e individuais que a criança recebe ou já recebeu.
A regra surge para a criança como uma
forma de afirmação do seu eu, a submissão dela à regra social é um dos
meios que o eu utiliza para se realizar, sendo assim a regra se mostra
como instrumento da personalidade, é a ordem colocada em nossos atos
(CHATEAU,1987). As regras do jogo podem ser transmitidas, as que passam
de geração em geração e as espontâneas, criadas na hora do jogo, sendo
por isso mais fácil de serem esquecidas. Já nas regras transmitidas a
criança copia regras que dirigem se comportamento, como por exemplo
brincar de escolinha, de motorista, de mãe, de vendedora. O modelo
funciona como a regra do jogo. Nas regras espontâneas a criança, segundo
Chateau(1987)
Manifesta sua vontade pela permanência
de seu ato, como por exemplo andar sobre a calçada. Ela não se deixa
vencer pelas dificuldades. Ela afirma o seu ato, proclama o valor de sua
personalidade. Enquanto brinca se afirma através da obediência a lei
que ela mesma se submeteu. (p.64)
Vygotsky (apud Friedman, 1996)
afirma que a criança ao brincar torna real o que imagina e que não há
atividade lúdica sem regras, a diferença é que nos jogos as regras não
precisam e não são expostas explicitamente. Este autor acredita que o
respeito, da criança, as regras é uma fonte de prazer e permite à
criança fazer parte da realidade.
Liontiev (apud Friedman, 1996)
menciona um fato interessante, a idéia de que a criança, por meio dos
jogos de regras, começa a se auto- avaliar segundo suas próprias ações,
comparando-as com as de outras crianças.
Os jogos de regras possibilitam na
criança o desenvolvimento do pensamento abstrato, porque são
introduzidos no jogo novos significados, simbólicos e ações. Nessa fase a
criança adquire autonomia, pois ela cria, recria as regras do seu jogo;
ela toma decisões que possibilitam o desenvolvimento cognitivo diante
de diversas situações. A regra coletiva começa a ser introduzida e
interiorizada pela criança. Ela aprende que existem regras a serem
seguidas dentro da sociedade e que se não forem cumpridas constitui
falta e quem a desrespeitou terá que arcar com as conseqüências de sua
escolha sendo punido por tal ato.
A criança, através dos jogos de regras
já tem uma certa noção da vida em sociedade o que contribui para o seu
desenvolvimento social e para a formação de um adulto que sabe que tem
regras a seguir, e que se adapta mais facilmente a elas e que quando não
se sente á vontade, satisfeito com as regras, tanto do jogo como da
vida em sociedade ou até mesmo individual, busca uma transformação para
sentir prazer em suas ações. É o que ocorre no jogo, quando em grupo,
por exemplo, as crianças brincam, e a todo momento mudam as regras do
jogo e o próprio jogo. Negrine (1994) afirma que:
(…) a criança joga de muitas coisas em
um determinado espaço de temp. Pode-se dizer que a criança em uma
situação de jogo inferior a trinta minutos, chega a representar, pelo
menos três papéis diferentes (…). A medida que muda-se o jogo, muda a
representação, e com ela as emoções em um processo muito dinâmico.(p.87)
Segundo Chateau (1987) no mundo adulto
não há lugar para o jogo, pois a sociedade impõe regras rígidas,
imutáveis, o que torna a criança e o adulto, em seus passivos e
dependentes de regras pré-estabelecidas pelo meio exterior, sendo contra
esta tirania, estes dogmas fixados que a criança quando se tornar
adolescente irá lutar e buscar transformá-la.
Através dos jogos de regras a criança
aprende a respeitar as pessoas e o meio em que vive. Ela tem maior
interação, com ela mesma, com os outros e sua afetividade, que consiste
em amor, raiva, ódio, alegria, insegurança, tristeza, irá influenciar em
suas escolhas. A motivação também é uma área afetiva que pode fazer com
que a criança se esforce ou não na realização de alguma tarefa, sendo
seu desenvolvimento afetivo prejudicado caso esteja com algum bloqueio
nessa área. Enquanto educadores, devemos detectar o problema e as
aflições que impedem o bom desenvolvimento do aluno utilizando
atividades lúdicas para reverter esta situação.
As regras externas, quando associadas as
internas levam a uma supressão de benefícios em proveito de uma relação
recíproca de confiança e respeito com o adulto e com outras crianças o
qual leva a autonomia, que é alcançada graças a cooperação (KAMIL apud
FRIEDMAN, 1996). O desenvolvimento moral nas crianças a partir dos
jogos de regras pode ser alcançado através do trabalho em grupo,
destacando-se aqui os jogos cooperativos*, que proporcionam à criança a
percepção de que em um grupo, em uma sociedade, todos dependem uns dos
outros, que há a necessidade de se montar estratégias para se chegar a
um objetivo, porém todos devem se ajudar mutuamente já que o grupo é
quem decide as regras do jogo.
Os jogos de regras possuem
características que vão acompanhar o indivíduo até sua fase adulta, onde
vivenciará mais explicitamente a concepção de regras. Com esses jogos a
criança desenvolve aspectos cognitivos; tem a atenção, o senso de
responsabilidade e criticidade despertados; adquirem noções de
sociedade, regras, torna-se mais interagida socialmente, terá suas
escolhas afetadas por sentimentos como raiva, ódio, alegria, além de
relacionar as regras internas as externas e desenvolvendo aspectos
morais como autonomia e cooperação, sendo de extrema importância que o
educador integre a criança na sociedade de forma lúdica, dinâmica e
completa através da interação desta com o meio físico, social, cultural,
afetivo, entre outros , promovendo o desenvolvimento dessa criança e
para uma futura sociedade que prime pela democracia, justiça e
cooperação.
REFERÊNCIAS
CHATEAU, Jean: O jogo e a criança- São Paulo- Summus, 1987.
FRIEDMAN, Adriana: Brincar, crescer e aprender: O resgate do jogo infantil- São Paulo, Moderna, 1996.
NEGRINI, Airton- Aprendizagem e desenvolvimento infantil V-1- Porto Alegre: Prodil,1994.
Disponível em: http://www.pedagogiaaopedaletra.com.br/posts/jogos-de-regras-no-desenvolvimento-social-da-crianca/